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Gazeta Norte Mineira - João Figueiredo


João Figueiredo

João Figueiredo - Articulista
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Desejo de destruição
Ter, 29 de Junho de 2010 12:23

Numa roda de amigos, uma pessoa se vangloriava de ter resolvido, de forma definitiva, um problema de ataques de raposas que estavam predando galinhas num sítio de sua propriedade. Ele disse ter colocado vísceras envenenadas com “chumbinho” em pontos estratégicos freqüentados pelos predadores.
As raposas foram atraídas, alimentaram-se das iscas envenenadas e foram exterminadas na região. A atitude até poderia ser considerada aceitável se avaliada numa perspectiva de que o autor seria alguém desinformado dos efeitos danosos dos seus atos ao ecossistema: mas não o era; o autor de tal façanha era nada mais nada menos do que um biólogo formado na nossa universidade de integração regional. Ele, com certeza, sabia que os predadores contribuem para o equilíbrio ecológico e que utilizando o veneno estaria matando também animais necrófagos e insetos diversos.
Seria apenas a ambição pelo lucro ditando atitudes agressivas ao meio ambiente? Creio que não. Vejo nisto tudo, a manifestação do ímpeto de destruir, de se dominar um determinado universo pela força da destruição – possivelmente é o mesmo sentimento que move os ditadores sanguinários. Quantos cães errantes são enxotados a pontapés ou pedradas sem nenhum motivo aparente? Quantas gargalhadas são soltas pelos infortúnios dos outros? Não há dúvidas, o ser humano carrega consigo um desejo de destruição.
Todos nós temos, em maior ou menor grau, o incontrolável desejo de parecermos fortes, inteligentes, capazes, e de nos convencermos disto. Há uma constante busca de auto-afirmação. É uma herança da educação que ensina às crianças que elas são sempre inferiores aos adultos: esse sentimento de inferioridade que nos é introjetado na infância nos acompanha pela vida toda, somando-se a uma série de outros sentimentos análogos originados das nossas frustrações, nossos traumas e insatisfações.
Sentimos algum prazer (quase sempre inconfessável) em destruir algo; no fundo, é o desejo de exercer algum domínio sobre a natureza, sobre alguém ou alguma coisa. Manifestamos isto desde ao rasgar desnecessariamente em pedacinhos a folha má impressa no computador, ao se comprazer na poda de uma planta, na derrubada de uma parede que se pretende reconstruir, na palmada que alguns pais costumam dar no filho travesso, até o extermínio de animais em caçadas ou da forma acima citada – quando não se chega ao desejo de extermínio humano sobre pretextos que se quer plenamente justificáveis (e aí entra a atuação dos advogados de defesa para justificar inclusive o injustificável). O sentimento que permeia essas situações, certamente não é diferente do êxtase que certa vez um camponês manifestou, com um brilho intenso nos olhos, ao falar do seu deleite em trabalhar descortinando áreas de pastagens...
Finalmente, em alguns sacrifícios religiosos, é possível o entendimento de que ali também estão presentes indícios do desejo de destruição. Marcel Maus e Hennri Hubert no “Ensaio sobre a natureza e a função do sacrifício”, afirmam que o sacrifício é um ato religioso que, pela consagração da vítima, modifica o estado moral do ofertante ou do objeto que o interessa. Ora, modificar o estado moral do ofertante é satisfazer-lhe o ímpeto de destruir, justificado pela crença religiosa em que a vítima intermedeia o contato entre o sacrificante e o deus.

 

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