Quem tiver apetite para risco vai se destacar no Brasil

*Sócio da área de estratégia da KPMG no Brasil


O Brasil vive uma das suas maiores crises econômica e política das últimas décadas. Com um cenário de incerteza, ainda não é possível vislumbrar o que pode vir pela frente e a economia ainda não apresenta os sinais de recuperação esperados. A estagnação econômica combinada com a instabilidade política engessa a agenda de mudança. Segundo dados divulgados em dezembro pelo Banco Central, a economia encolheu 0,48% em outubro, sendo o quarto mês seguido de queda no Índice de Atividade Econômica da autoridade monetária (IBC-Br).

Certamente, foi um ano difícil para a população brasileira e também para quem investe no país.  Apesar da troca dos presidentes da República, a manutenção da incerteza se manteve. A recessão continua e o país ainda é um grande ponto de interrogação. Acredita-se que muitos investidores estão postergando a decisão de investir, esperando até que a situação econômica volte a respirar. O que temos visto é que os fundos de privateequity têm dinheiro para investir, mas estão esperando o melhor momento para isso. Enquanto isso, eles se mantêm em compasso de espera. Um dos integrantes dos Brics, bloco formado pelos países emergentes como a Rússia, Índia, China e África do Sul, o Brasil não é mais o menino de ouro para os investidores.

Uma pesquisa feita pela KPMG com 200 dirigentes de empresas dos Estados Unidos apontou que o compliance regulatório, a instabilidade política e a corrupção são os principais desafios do Brasil para os investidores americanos. O estudo analisou os principais obstáculos de outros sete países considerados emergentes como a China, Índia, Indonésia, Nigéria, Arábia Saudita, África do Sul e Vietnã, a partir de uma comparação entre o Investimento Estrangeiro Direto (IED) feito pelos EUA em nações emergentes com o dos 34 países mais industrializados do mundo que compõem a OECD (Organização de Cooperação e de Desenvolvimento Econômico).

A partir disso, o estudo constatou que, de 2010 a 2014, os Estados Unidos investiram: no Vietnã, -22,2%; na China, -19,5%; na Indonésia, -11,1%; no Brasil, -10,2%; na Arábia Saudita, -9,4%; na Índia, -7,5%; e na Nigéria, 9%. Dessa forma, é possível ver que, dos oito países, o Brasil é o quarto que menos recebeu investimentos dos Estados Unidos e é considerado menos interessante para as empresas americanas do que a Arábia, Índia e Nigéria, sendo que esta última foi a única que apresentou aumento do IED.

Por outro lado, mesmo diante desse contexto desfavorável, há investidores que estão conseguindo tirar vantagem da situação e explorando as adversidades. Dessa forma, quem sabe navegar nesse ambiente de complexidade e incerteza e tem um apetite maior para risco vai conseguir se destacar nessa fase. Com várias empresas com problemas de caixa, bons ativos de companhias brasileiras estão sendo comercializados com valores bem abaixo do mercado, principalmente, por causa da desvalorização do real frente ao dólar. Um negócio e tanto para quem tem dinheiro para investir agora e esperar até que essa maré passe. Devemos destacar aqui aquisições recentes como a feita pela japonesa Mitsui que comprou uma participação na mina de carvão Moatize, da mineradora Vale, em Moçambique. Outro exemplo importante foi a compra realizada pelo consórcio liderado pela canadense Brookfield de 90% da unidade de gasodutos Nova Transportadora Sudeste (NTS), em negócio de US$ 5,19 bilhões, pertencentes à Petrobras.

Concluindo que, apesar de o Brasil não se manter mais no foco dos investidores, haverá sempre grandes oportunidades de negócio. O importante agora é lembrar que para ser bem-sucedido por aqui será preciso ter visão de longo prazo, frieza e coragem.