Seca provoca fuga de jovens para Montes Claros

No destaque, a audiência pública que discutiu o assunto e que deixou de convidar a Emater e órgãos afins

A seca que assola a região fez crescer o êxodo de produtores rurais, principalmente de jovens para a cidade de Montes Claros. O impacto direto é o esvaziamento das comunidades rurais e o consequente agravamento das crises sociais na cidade, pois esses jovens, sem encontrar empregos, acabam ficando vulneráveis a ações de aliciadores do tráfico de drogas. Os extensionistas da Emater em Montes Claros, Charles Ramom Xavier e Arcanjo Marques, apresentaram esse relato, ontem de manhã, quando participavam da audiência pública realizada pela Câmara Municipal para discutir as consequências da seca nos últimos anos. Uma falha da coordenação gerou inquietação: deixaram de convidar os principais envolvidos nessa área, como a Emater, Conselho Municipal de Desenvolvimento Rural e Sindicato dos Trabalhadores Rurais.

Noemia das Graças Araújo e Manoel Gonçalves, lideranças rurais
(Fotos: Girleno Alencar)

Apesar do homem do campo estar sofrendo os impactos da seca, as Secretarias Municipais de Saúde e Educação apresentaram dados de que a situação estaria normal nas comunidades rurais. Porém, os relatos das comunidades rurais foram diferentes. Noemia das Graças Araújo, da comunidade de Calhau, reclamou da situação da estrada de Brejão a São João da Vereda, que está inviabilizando o transporte escolar. Destacou que na área de saúde o médico atende uma vez por mês na comunidade, mas não leva o medicamento e, com isso, cria o impasse, pois a pessoa adoentada fica o tratamento.

O presidente da Associação Comunitária de Borá, Manoel Gonçalves de Oliveira, lamentou o risco de a comunidade rural ficar sem água para consumo próprio, pois os dois poços artesianos que abastecem as 63 famílias estão com débito acumulado de R$ 4 mil de conta de luz. A Prefeitura se recusa a pagar a conta, enquanto o rateio com as famílias é insuficiente, chegando a 1 mil por mês. Ele recebeu o comunicado de que a conta de luz será cortada, pois são três meses atrasados e está chegando mais um mês de atraso. O extensionista Arcanjo Marques estima que 3.500 cabeças de gado já morreram em Montes Claros por causa da seca, enquanto o rebanho caiu de 170 mil para 100 mil. O prejuízo acumulado em toda safra foi de R$ 57 milhões.

Charles Ramom Xavier, também extensionista da Emater, afirma que o homem do campo atravessa a situação mais crítica dos últimos tempos, pois ocorreram apenas 680 milímetros de chuvas, quando a média histórica é de 1.000 milímetros. A produção de milho teve perda de 100%, enquanto de sorgo, de 80%. A zona rural de Montes Claros é formada por aproximadamente 8.000 famílias, ou seja, 40 mil pessoas. O rebanho ou morreu por falta de pastagem ou foi vendido para São Paulo e Mato Grosso. Porém, como tem aumentado a fuga do homem do campo para a cidade, a Emater começou a discutir a sucessão rural, para evitar que os jovens saiam do seu habitat, esvaziando esse local. 

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Durante a audiência,  os vereadores Ildeu Maia e Rodrigo Cadeirante  cobraram atenção com relação à saúde, às escolas e às estradas. “Tem situações que precisam ser resolvidas urgentemente, por exemplo, na comunidade de Ermidinha que faltam técnicos de enfermagem, por isso, a unidade de saúde está fechada”, afirmou Ildeu. Wilton Dias  afirmou que não é possível desejar a permanência do trabalhador na zona rural, se não for feito programas para garantir a atenção básica, a segurança pública e a valorização do trabalhador. “É de fundamental importância que a assistência à telefonia móvel possa estar disponível a população, pois aproxima o homem do campo ao meio urbano” finaliza.  Para Sóter Mágno (PP), é preciso estabelecer programas e projetos para que este homem do campo possa ser valorizado na produção rural, para que assim, ele possa ter recursos para se firmar na propriedade rural e promover seu desenvolvimento.

Charles Ramom Xavier lamenta o êxodo rural (Foto: Girleno Alencar)
Aracanjo Marques alertou sobre os danos da seca (Foto: Girleno Alencar)