Acidentes ainda são principais causas de mortes de crianças e adolescentes no país

A notícia da morte de um garoto de três anos por afogamento em uma piscina de um condomínio em Montes Claros, no último dia 5 de janeiro, comoveu a população. Segundo informações divulgadas, a mãe do pequeno Antônio, teria se ausentado por alguns instantes para comprar um lanche para o filho mais velho, e, quando retornou, já não encontrou o filho no mesmo lugar. O menino então foi localizado dentro da piscina. Nas redes sociais muitas pessoas postaram mensagens lamentando o acidente que vitimou a criança.

Distribuição das mortes em decorrência de acidentes por causa e por faixa etária (Gráfico: ONG Criança Segura)

Uma história parecida ocorreu em Poços de Caldas, no Sul de Minas, três dias antes do acidente com Antônio, quando uma criança de 1 ano e meio morreu depois de cair em uma piscina de plástico. Segundo o Corpo de Bombeiros, a criança se afogou na própria residência, em uma piscina de 1000 litros. O acidente também gerou comoção no Estado.

Muito mais do que tocar o emocional, tragédias como estas devem servir como alerta para mães, pais e responsáveis para o risco dos acidentes que podem acontecer onde menos se espera. No Brasil os acidentes são hoje as principais causas de mortes de crianças de um a 14 anos. Segundo dados do Ministério da Saúde, todos os anos 4.500 crianças morrem e outras 122 mil são internadas por motivos acidentais no país. Mas, estudos demonstram que 90% desses acidentes poderiam ser evitados com medidas simples de prevenção.

Segundo a pasta, “as principais causas de mortes ao longo dos últimos cinco anos, foram de acidente de trânsito 38%, seguido de afogamentos 24%, depois relacionados à respiração como, por exemplo, sufocação na cama, asfixia com alimentos e outros 18%, queimaduras e outros representam 6% do total. Por último está intoxicação 2% e acidentes com armas de fogo 1%”.  

Nessa análise, também foi possível perceber particularidades envolvendo meninos e meninas vítimas de acidentes. As principais causas de morte de meninas são sufocação e intoxicação. Já entre os meninos, houve mais casos de quedas, afogamentos e armas de fogo.

“É sabido que acidentes como de trânsito, por exemplo, muitas vezes é impossível prever ou evitar, mas muitas das ocorrências no ambiente doméstico podem ser prevenidas com maior atenção dos responsáveis”, é o que alerta a ONG Criança Segura.

Os pais precisam estar ainda mais alertas com o período de férias, quando as crianças e adolescentes passam mais tempo dentro de casa. “Criança quietinha, que fica sentada desenhando ou brincando com massinha, pode ser um sossego para os pais. Mas mesmo com estas crianças mais calmas, é preciso ter muito cuidado, elas têm energia de sobra e são capazes de surpreender os adultos, com brincadeiras perigosas”, alerta a pediatra Ana Carolina Lima. 

Dentro de casa, os pais têm que ter cuidado principalmente com as queimaduras, casos de crianças queimadas, aumentaram em 37% no país em cinco anos. O levantamento foi feito pela ONG Criança Segura, com dados do Ministério da Saúde.

 

Casos de acidentes domésticos

A mãe de Thiago, de seis anos, Ivete dos Santos, conta que passou uma semana acompanhando filho na pediatria da Santa Casa, depois de uma brincadeira que resultou em queimaduras de 2º e 3º nas duas pernas. “Eu estava no trabalho, e sempre deixo meus filhos com uma pessoa que cuida deles, por alguns minutos essa pessoa se ausentou para lavar vasilhas, e foi tempo suficiente para ele jogar álcool no tapete e depois colocar fogo. O tapete acabou grudando nas pernas”, explica a mãe.

A filha de Fátima Rodrigues, hoje com doze anos, passou um sufoco na família quando tinha três. A menina brincava com uma moeda que achou no chão da casa, e acabou engolindo o objeto que ficou preso na garganta. “É um susto muito grande que a gente passa quando esse tipo de coisa acontece. Ela começou a ficar sem ar, e eu não sabia como socorrer. A nossa sorte foi que um vizinho chegou a tempo e fez o procedimento de desengasgo”, lembra a dona de casa.

A pediatra Ana Carolina chama a atenção que “criança pequena brincando com outras mais velhas, sem a vigilância de um adulto, também é um perigo”. De acordo com a médica, casos de crianças machucadas por outras também tem sido muito comum no consultório dela. “Crianças pequenas e até bebês que foram empurradas, ou acertadas com algum objeto. Há casos de crianças que perderam a visão com esse tipo de brincadeira”, alerta a médica.

Criança brincando sozinha, sem supervisão também pode ser perigoso. A atendente Ana Clara Souza, hoje com 25 anos, perdeu a visão de um dos olhos quando tinha quatro anos. A jovem conta que a mãe precisou levar a irmã mais nova para se vacinar e a deixou sob os cuidados de uma vizinha, que a deixou brincando sozinha. “Me lembro que achei uma faca, e acabei machucando o olho com ela”, explica Ana Clara, que acredita que a vizinha não era uma pessoa apta para olhar crianças.

Para Vanessa Machado, da ONG Criança Segura uma das principais dicas de prevenção de acidentes é a supervisão constante e ativa das crianças. “E aí, não interfere muito se é o pai e a mãe ou uma terceira pessoa que esteja olhando a criança, quando um adulto está responsável por cuidar de uma criança ele deve estar consciente de que sua atenção tem que estar voltada 100% para a criança”, afirma.

Ainda de acordo com a representante da ONG, "se as pessoas conseguirem entender que existe um risco e que nós adultos somos responsáveis por proporcionar um ambiente seguro para a criança, pela supervisão da criança, a gente consegue diminuir muito estes números", afirma.